O CLÃ dos “BAJECAS”

Os nomes têm as origens mais diversas. A maioria das vezes são bem simples: derivam uns da ligação ao local de habitação, outros da região onde os antanhos se fixaram.

Guimarães, Porto, Lisboa, Braga são tanto cidades como nomes de pessoas e famílias. Mas também Tortosendo, Alvarenga, Serzedelo…

Chamosinhos, por exemplo. A alguns de nós este nome evocará reminiscências da infância. Havia - estão lembrados? - uns vizinhos nossos que davam por este nome. E sabem que há uma povoação assim chamada, ali mesmo ao pé de Valença? Nome raro e impenetrável: o que significará “chamosinhos“?

Havia até quem, num assomo de jactância, se apossasse do nome da terra como sua propriedade: há aí uns nomes que de início eram Ferreira e de súbito passaram a ser Ferreira Jordans e Riba d’ Ave. Singularidades…

Uma simples árvore de fruto pode crismar para todo o sempre várias gerações de famílias: o tronco dos Oliveiras e Pereiras ficará para todo o sempre ligado ao tronco duma simples árvore de médio porte. Que neste caso é de fruto, o que - admitamos - confere ao nome um traço de nobreza e carácter. Mas que dizer de Matos, Codeços, Giesta…

E que dizer dos Saramagos? Por mais Nobel que ostentar possam, são uma desprezível erva daninha e só mesmo os coelhos a podem tragar. Sabem os que já andaram à cata desta ervinha que esses roedores lhe chamam um figo.

Figo? Este, como se sabe, tanto pode ser o saboroso “pingo de mel", com a sua lágrima pendente e doce, como jogador mediático e de selecção.

E Coelhos há-os aos pontapés. É raça de tal maneira prolífica que até Noé, que gostava do seu copito, pensava que era a ressaca que o fazia ver a dobrar. E dizem que nas horas de insónia, esperando o fim do dilúvio, não contava carneiros, mas coelhos …

Mas de nomes sabia o Variações, que era António, mas - dizem as más línguas - não era santo: terá pecado muitas vezes “contra natura“. Razão tem ele quando diz no refrão: “ Maria Albertina/Como foste nessa/De chamar Vanessa/À tua menina? ”

É sabido que das Cátias, Vanessas e Tânias não rezará a história: são nomes que nada dizem e a nada se ligam. Vieram com as novelas e com elas irão…

Mas já reafirmo a minha fé em nomes como Maria, Rosa, Margarida, Jacinta, Raquel, Judite, Ester, Juliana, Brás, Gomes, Sá… São nomes que rescendem perfumes: o aroma da flor, o apelo da história bíblica. Mesmo quando nos trazem os olores mais comezinhos duma boa sopa de legumes ou de um naco de bacalhau … Nestes nomes acredito!

E há os nomes sólidos, imponentes, que arrastam consigo o peso de gerações: os Manuel ou Manoel, os David ou Davide, os Domingos, os Angelino, os João…

Já Abílio não me convence, por mais que lembre com saudade o meu avô paterno, meu padrinho. Será nome que traduz jeito, habilidade… Para quê? A minha pobre história pessoal não mo diz … Talvez para enganar, que foi o que fiz toda a vida... Dizem que era artista na venda de placebos e “ banha da cobra”…

Mas a que vem este arrazoado ?
À guisa de introdução para o que vem a seguir, pois não seria curial recuarmos às nossas origens sem termos presente o peso, às vezes, o labéu, que os nomes determinam.

Mas voltemos ao título. Reza a tradição familiar que um nosso antepassado – próximo ou remoto, não é certo – tinha um grande orgulho nos seus dotes de agricultor. Estavamos ainda na idade rural: tudo emanava da terra e da terra se extraia o sustento. Só muito mais tarde é que as máquinas substituíram os teares manuais e a indústria criou novas fontes de sustento e rendimento.

Mas o nosso avoengo agricultor tinha – ao que me contam – um especial orgulho nos seus pés de feijão. Era feijão de trepar. Diz quem viu que, no auge da estação, pendiam das estacas umas vagens de arregalar o olho… Os passantes sentiam na barriga o conforto das sopas e cozidos que aquelas vagens enriqueceriam… E disso davam conta ao nosso tetravô. Este, ufano e sem cuidar de primores linguísticos, respondia: “- É, tenho aqui umas lindas “bajecas” !” E disso se gabava pela freguesia inteira.

Cuido eu que quisesse usar o diminutivo – não sei se correcto – de “vagensecas“. De correcções não cuidava ele. Mas não é sem espanto que vejo como a ironia da tradição batiza a nossa família com uma corruptela linguística. Como se de uma vagem torta ou feijão chocho se tratasse...

Mas, na verdade, a nossa família não é uma coisa nem outra. Os presentes a este convívio demonstram que o feijoeiro era frondoso, a estaca rija e a vagem era túrgida de feijões.

Feijões que deram feijoeiros, vagens, feijões, novos feijoeiros, “vagensecas, bajecas, bajecas … até aos confins dos tempos. Tenho para mim que é raça tão prolífica como os Coelhos. Pelo que posso ver não está seguramente em vias de extinção.

Quem esteve nos trópicos sabe que há uma subespécie de feijão – o feijão macaco, assim chamado. Ao ser tocado, lança um pó que provoca uma coceira e prurido de enlouquecer um cristão.
Não somos dessa espécie.

Somos gente de trabalho e iniciativa ; somos honestos e fiáveis ; somos solidários e interventivos ; somos asseados e às vezes vaidosos (fomos habituados a limpar o sarro atrás das orelhas); com boas palavras nos convencem, mas com maus modos não nos arrancam um feijão seco; podemos ser manhosos, mas é por esperteza e inteligência.

Enfim somos a melhor família do mundo!

Bem-vindos!

Abílio Machado